Artigo – Sobre afinação

Por: Voila Marques

“Alto”, “baixo”, “prá trás”, “prá frente”, “prá cima”, “prá baixo”: uma mesma palavra ou expressão para diferentes direções…

O contrabaixo acústico é um instrumento sem trastes (traste se fosse bom, não teria esse nome, né?). Isso quer dizer que a afinação é feita nota por nota. O mesmo acontece com o violino, a viola e o violoncelo. Ao começar o estudo do contrabaixo, o estudo da afinação acontece em paralelo.

Primeiro, aprendemos a colocar os dedos nas cordas. Até a forma da mão se definir, é necessário que o(a) professor(a) ajuste a afinação do(a) aluno(a) constantemente. Com o tempo, espera-se que esses ajustes sejam menos frequentes. Nessas horas, “ponha o dedo mais prá trás”, “abra mais os dedos”, “afine”, são expressões corriqueiras.

Agora, quando se ouve “está alto”, isso quer dizer que a afinação está alta, ou seja, que a nota está mais aguda do que deveria, e não que seja para abaixar o ombro naquele momento.

Quando se ouve “está baixo”, isso quer dizer que a afinação está baixa, ou seja, que a nota está mais grave do que deveria, e não que seja para você deixar de ficar troncho no contrabaixo, pelo menos, não nessa hora…

Quando se está “alto”, é preciso deixar a nota mais baixa (grave) para que ela fique afinada. Então a gente  “desce” a afinação indo com o dedo mais prá trás. Até aí isso é bem simples de entender, só que quando a gente anda “prá trás”, a gente está indo com a mão para a parte mais alta do instrumento (em direção à voluta), ou seja, a nota “abaixa”, mas a mão está “subindo”. Isso parece complicado, mas depois a gente acostuma: a afinação desce quando a mão vai prá cima do contrabaixo (em direção à voluta). A afinação sobe quando a mão vai prá baixo do contrabaixo (em direção ao cavalete).

Conclusão inicial: Dependendo do ponto-de-vista, a gente pode descer prá cima e subir prá baixo, ok?

Exemplo: numa escala de Dó Maior, dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó, o movimento é ascendente, porque as notas estão subindo, certo? Só que no instrumento, a sua mão esquerda (em movimento) estará “descendo” (indo para a parte mais aguda) e as posições estarão subindo (1ª, 2ª, 3ª, etc).

Na mesma escala de Dó Maior, dó-si-lá-sol-fá-mi-ré-dó, o movimento é descendente, porque as notas estão descendo, ok? Só que no instrumento, a sua mão esquerda (em movimento) estará “subindo” (indo para a parte mais grave) e as posições estarão descendo (5ª, 4ª, 3ª, etc).

Conclusão final: ao ouvir “tá alto”, desça a afinação, levando a mão para trás. Com isso você ABAIXA a afinação.

Para efeito de afinação, você estará indo com os dedos “prá trás”, mas para execução de uma sequência de notas descendentes, você estará “SUBINDO” no instrumento.

Ao ouvir “tá baixo”, suba a afinação, levando a mão para frente. Com isso você SOBE a afinação. Para efeito de afinação, você estará indo com os dedos “prá frente”, mas para a execução de uma sequência de notas ascendentes, você estará “DESCENDO” no instrumento.

Dedo: “prá trás” (aberto em direção à voluta),e “prá frente” (aberto em direção ao cavalete), “prá cima” (apontado em direção à voluta), “prá baixo” (apontado em direção ao cavalete);

Notas: “alta” (está mais aguda do que deveria), “baixa” (está mais grave do que deveria);
Posições: “sobem” (conforme vão ficando mais agudas) e “descem” (conforme vão ficando mais graves);

Mão numa mesma posição: “prá trás” (em direção à voluta) e “prá frente” (em direção ao cavalete);

Mão em movimento: “sobe” (em direção ao cavalete) e “desce” (em direção à voluta).

Entender esses “direcionamentos” e “condicionamentos” é um passo importante para você desenvolver o “dialeto contrabaixístico” e não ficar perdido nem quando o professor se dirigir a você, nem quando você estiver conversando com outros colegas de instrumento, ou mesmo dando aulas, etc. Isso pode demorar um tempinho a acontecer, mas você e o contrabaixo só têm a ganhar com isso…

Sobre afinação e pinguins…

Penso que a Música é um importante meio de comunicação e expressividade entre você mesmo, entre as pessoas e/ou entre o músico e o meio em que ele vive, e que a afinação é mais um condicionamento musical, só que com um objetivo bem amplo: facilitar a compreensão da música.

Embora eu pense que a Música sirva para o seu “eu” se entender melhor, acredito também na função social dela e que, um dia, você ainda tocará para alguém, mesmo que não queira.

Você pode dizer que está se lixando para o mundo e que só toca para você mesmo e para mais ninguém e, ainda assim, estará usando a Música para demonstrar alguma coisa.

Ex: mesmo que você se tranque no quarto, para que ninguém interfira no seu momento pessoal de fazer música, você estará transmitindo às pessoas o seu desejo de ficar só, e isso é uma forma de se comunicar, de expressar os seus sentimentos. E se o som vazar, você poderá também transmitir outros sentimentos, até bem mais “musicais”, às outras pessoas à sua revelia, é claro principalmente se esse som estiver afinado.

O mesmo acontece se você quiser ir para a Patagônia tocar para os pingüins: com essa atitude, você estará dizendo às pessoas que você quer ficar só e/ou conhecer novos lugares e/ou que precisa de paz, e concretizará esses desejos quando estiver fazendo música para a bicharada, muito embora eu ache que o público, por ser menos especializado, não dará a mínima para a sua afinação. Êba!!!

Bem, mas o jeito é encarar de frente o problema da afinação, até porque, viajar com o acústico para a Patagônia para poder tocar desafinado livremente para os pinguins é coisa de excêntrico rico.

Você já imaginou o que teria acontecido com música brasileira se o João Gilberto tivesse ido cantar “Desafinado” só para os pingüins?

Por outro lado, penso que exportar alguns cantores e duplas de cantores para a Patagônia…ãhn-ãhn… Deixa prá lá…

Agora repare uma coisa: mesmo que você toque trancado num quarto ou isolado numa reserva ecológica na África, você sempre tentará tocar afinado, dentro dos padrões de afinação que você conhece.

Mesmo que você nessas horas se desligue do mundo e ligue a teclinha do efe-se para a afinação, ela apitará naquela passagem que soar “esquisita” para você porque, no que se refere à afinação, a gente procura tocar como está acostumado a ouvir.

Na hora em que você escorrega a mão para executar músicas ocidentais e toca o que vier, fazendo valer todo o seu passado árabe ou a sua admiração pela música indiana, pode ter certeza de que foi um momento experimental e/ou esporádico, porque a sua memória musical não deixará isso se tornar constante. Dificilmente, você conseguirá completar o seu propósito expressivo de transmitir alguma emoção específica ao tocar para outras pessoas, se o fizer completamente desafinado, e aí a sua tentativa de comunicação será modificada nesse momento.

Ex: numa música lenta e expressiva, na qual você quer expressar nostalgia, você também pode, com sucessivas desafinações, se tornar motivo de risada ou de preocupação constante do público com a sua execução.

A afinação é uma das formas de aprimorar o que a Música faz, essa “sintonia” com você mesmo, com as pessoas e/ou com o meio ambiente, mas o interessante é que ela busca o que ela mesma é: uma sintonia das notas. Resumindo, a afinação é o constante aprimoramento da afinação. Daí a importância do “condicionamento” da afinação ser paralelo ao estudo da Música e/ou do instrumento.

Sobre afinação, memória e fosfosol…

Nota: (Como o texto está bem longe de ser “científico”, usarei aspas para denominar algumas das memórias abaixo)

Antes da música chegar aos dedos, ela passa pela sua cabeça, que dá os direcionamentos necessários (e às vezes desnecessários, hahaha!) para você tocá-la.

Antes da música sair do “coração”, ela fez um longo estágio na sua cabeça também… “Papagaio come milho e periquito leva a fama”, conhece? Pois é, a sua cabeça comeu o milho e o seu coração levou a fama…

Conclusão: a parte mais musical de você não é a mão divina ou o coração de manteiga, etc: é a cabeça (de cima) mesmo…

Quem tem cabeça, tem memória e a cabeça de um músico é “multifuncional”: tem várias memórias… Um instrumento para ser tocado e/ou aprendido depende dessa série de memórias, que atuam em conjunto para que isso aconteça. A afinação também é consequência disso.

a) memória auditiva: quando você procura tocar o que já ouviu. É a memória do som que está dentro de você;

b) memória espacial: quando você procura deslocar a mão dentro de um espaço pré-estabelecido para que uma determinada nota soe. É a memória que está nas proximidades físicas de você;

c) memória visual: quando você “decora” um movimento e/ou uma imagem e procura repeti-los. É a memória que está interligada ao que você já viu.

OBS: a técnica do instrumento está diretamente relacionada a essa memória, e a afinação está indiretamente relacionada a ela.

Ex: quando você visualiza internamente uma forma para as mãos, você a torna um padrão a ser seguido. A afinação será decorrente disso, porque mãos organizadas têm uma chance maior de produzir notas afinadas;

d) memória “temporal”: quando você calcula o tempo necessário para que a nota soe. Ela está diretamente ligada à memória espacial e à memória “física”.

Ex: na execução de notas rápidas, os dedos têm que chegar ao local mais rápido, ou seja, elas têm um tempo certo para acontecer, mas para que isso realmente ocorra, é necessário que você também desloque a mão mais rapidamente;

e) memória sensorial: quando você toca e o som produz uma sensação de “já ouvi isso antes”, que é bem anterior à sua consciência musical (quando você era bebê, estava na 1ª infância ou mesmo dentro da barriga da mamãe);

f) memória “cultural”: quando você toca de acordo com tudo que já ouviu. Essa memória é muito abrangente: pode ser da música que a sua família e/ou você ouvem ou da forma que a música é executada dentro de casa ou por outras pessoas, ou da música que os meios de comunicação transmitem, etc.

OBS: essa memória é decorrente de todos os sons que você ouve, gostando ou não: é involuntária;

g) memória “seletiva”: quando você ouve o que quer e/ou precisa e toca de acordo com isso que já ouviu.

OBS: quando você ouve sempre um determinado estilo de música, se você não o fizer de forma consciente, acabará influenciado com a afinação do que costuma ouvir, e executará uma música dentro desses padrões de afinação.

Se a música não for de “qualidade” e você só precisar tocar esse estilo na vida, você será um músico afinado para você mesmo e para as pessoas que ouvem somente esse tipo de música. Agora, se você precisar tocar outros estilos e/ou para pessoas que ouvem outros estilos, você poderá ser considerado um músico desafinado;

h) memória “física”: quando você utiliza se utiliza dos resultados de variantes de peso, pressão e velocidade sobre o seu corpo, que já estão condicionados em você, para modificar a afinação.

Ex: quando você quer executar determinada passagem e percebe que para afiná-la melhor terá que aumentar a pressão dos dedos sobre as cordas, porque você já passou por isso antes;

i) memória “corporal”: é aquela que faz você não trocar os dedilhados ou perceber que o ombro está tenso ou que tem que usar alguma parte específica do corpo para tocar.
Antes de afinar ou mesmo de se preocupar com a afinação, você precisa começar a aprender o instrumento. Saber o que é mão, dedo, braço, ombro, costas é óbvio e essencial para isso.Saber usar tudo isso e/ou perceber as eventuais ou constantes falhas das funções corporais no instrumento é mais um condicionamento;

j) memória “associativa”: é quando você faz associação com alguma regra ou alguma outra coisa para afinar.

Ex: quando na hora de tocar determinado trecho você o associa mais ao dedilhado ou a outras notas do que propriamente às notas reais (Dó – dedo 1; Ré dobrado bemol – dedo 1; Si sustenido – dedo 1 = a Dó – Dó – Dó = 111). Ou quando você afina melhor aquele trecho quando você o associa a outra música;

k) memória “afetiva”: é aquela que faz você associar sentimentos e situações passados na hora de tocar.

Ex: uma lembrança emocionante pode fazer um cantor e/ou um instrumentista “sairem da estrada” durante uma apresentação.

Já disseram “você é o que come”, mas em Música, acho que você é o que ouve e está o que toca. Quero dizer com isso, que o que você ouve, você leva para a sua vida inteira, mesmo que fique surdo, e tocará de acordo com isso enquanto permanecer músico ativo.

Haja memória… e fosfosol, né??!!

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